Para quem lida com a psicanálise e estuda a inserção dos indivíduos nos contextos sociais, uma autobiografia nunca é estática nem se complementa com o mero acréscimo de novos eventos. Ao contrário disso, a história de cada pessoa passa por contínuas reestruturações ao longo do tempo.

Uma pessoa que narre a sua infância aos vinte anos de idade provavelmente contará uma versão completamente diferente da mesma infância aos sessenta. Isso porque as contingências do presente sempre influenciam a narrativa do passado. Não é só de lembrança que é feita a memória, mas também de esquecimento. Que eventos vamos pinçar ou descartar do passado depende de como vivemos o momento. O mesmo se dá com a história, que está sempre, queiramos ou não, submetida ao nosso contexto atual.

Na sua versão oficial, há quase sempre uma amnésia dos excluídos, minorias étnicas, operários e, entre todos estes, também a pessoa com deficiência intelectual. A história, assim, está subordinada a um sistema classificatório que, tal como a sociedade, funciona por inclusão e exclusão de fatos, versões e personagens. É preciso garimpar muito para se encontrar notícias sobre os grupos mais marginalizados.

As primeiras notícias que se tem conhecimento acerca da deficiência intelectual remontam a um Papiro de Tebas (1552 a.C.) e ao Código de Hamurabi (2100 a.C.). Há referência a ela nos livros sagrados, no Talmud, no Alcorão, na Bíblia, na Roma Antiga, na Idade Média, enfim, uma longa trajetória até o século XIX, quando surgem as primeiras instituições especializadas na França (1831), na Suíça (1838), no Japão (1840), na Inglaterra (1843), na Holanda (1855), na Alemanha (1864), na Rússia (1876) e na Itália (1889).

No Brasil, em 1926, é criada a Sociedade Pestalozzi. Em 1954, no Rio de Janeiro, surge a primeira APAE do País. Em 1962, é fundada a APAE DE SÃO PAULO, que dois anos depois cria o Centro Ocupacional Helena Antipoff, dedicando-se à profissionalização da pessoa com deficiência intelectual, visando incluí-la no mundo do trabalho por meio de diversas ações e estruturas. O modelo em vigência na época, as chamadas Oficinas Protegidas, foi mantido por mais de 40 anos. Aos poucos, entretanto, a sociedade foi evoluindo e direitos foram sendo conquistados pelo movimento das pessoas com deficiência, até que o paradigma da inclusão surgisse de maneira determinante e irreversível.

A pessoa não deve ser institucionalizada, mas viver na comunidade, nos mesmos ambientes escolares, profissionais e outros, como qualquer cidadão, ainda que necessite de suporte. Com isso, em 2010, a APAE DE SÃO PAULO tomou a decisão arrojada de fechar espontaneamente sua Escola Especial, uma das maiores do Brasil até então. Três anos depois, na esteira desse movimento, fechou suas oficinas de trabalho para adotar a Metodologia do Emprego Apoiado, criada nos Estados Unidos no final da década de 1970. O modelo preconiza, entre outras coisas, que todas as pessoas, independentemente do grau de severidade de sua deficiência, podem trabalhar, desde que lhes sejam oferecidos os apoios necessários para isso. O trabalho é um direito fundamental e ninguém pode ser privado dele.

Desde então, muitas coisas aconteceram. Centenas de pessoas com deficiência intelectual foram incluídas em algumas das mais importantes empresas do país, privadas ou públicas, e a Organização vem agora transferindo essa tecnologia social para organizações congêneres, visando disseminá-la como ferramenta efetiva de inclusão social.

A APAE DE SÃO PAULO segue identificando oportunidades de trabalho, sensibilizando gestores e colaboradores, buscando e incluindo pessoas dos mais distantes bairros da cidade de São Paulo e, sobretudo, acompanhando periodicamente os jovens em seus postos de trabalho durante pelo menos um ano. As pessoas não precisam ficar apenas nas salas e corredores Organização. Ao contrário, é ela, com seus profissionais e processos, quem deve estar com as pessoas em seus próprios territórios, dentro das empresas, nas escolas, nos espaços de lazer, enfim, no mundo.

O passado nos inspira, mas é rumo ao futuro que avançamos. Retrocessos são inaceitáveis. Este nosso mundo pertence a todos e não existem cidadãos de segunda classe. É uma questão de Direito, de Justiça, de reconhecimento das diferenças individuais e da dignidade inerente e inalienável de toda pessoa humana. Nada tem de relação com a caridade.

Que a sociedade tenha êxito na garantia desses direitos e na crescente e necessária humanização das relações sociais para que o presente ilumine e, mais que isso, dê sentido ao nosso passado, além de conferir a ele um final feliz como herança para as futuras relações.

Autor

Flavio Gonzalez-blog

Flávio Gonzalez é psicólogo, mestre em aconselhamento, supervisor do Serviço de Qualificação e Inclusão Profissional da APAE DE SÃO PAULO. Atua há 23 anos em programas de Diversidade com foco na Inclusão Profissional de Pessoas com Deficiência, assessorando grandes empresas e organizações.