A sociedade deve ter um novo olhar, acreditando antes de duvidar

É muito importante esse momento em que nós, pessoas com deficiência intelectual, podemos escrever e falar algo por nós mesmos. Passamos por momentos difíceis, pois a sociedade não aceita a pessoa com deficiência intelectual. Ainda lutamos para “provar” que temos habilidades e que somos capazes.

O Grupo de Autodefensores nos auxiliou a entender quais são nossos direitos. A ideia do grupo é que as pessoas com deficiência intelectual entendam e garantam seus direitos. Ficamos mais fortes até para acreditar em nós mesmos. Muitas vezes, aliás, a exclusão começa dentro de casa; as famílias, pais, mães e irmãos e outros familiares não nos aceitam. Os familiares têm seus medos devido à sociedade cheia de preconceitos em que vivemos e, por causa disso, não podemos sair na rua, namorar, trabalhar, enfim, ter nossa autonomia.

No grupo trocamos experiências uns com os outros e vemos que, por não termos uma característica visível, como alguma síndrome, o preconceito é maior ainda. Por exemplo, descobrimos a deficiência intelectual na escola; sabíamos que algo estava errado, pois a gente tinha muitas dificuldades de leitura e escrita e não era preguiça ou falta de vontade, como ouvimos de muitas pessoas. Sentimos que a deficiência intelectual precisa ser mais divulgada, falada. Ainda existem muitas informações erradas que abrem espaços para o preconceito e a discriminação.

Falar com outras pessoas e pensarmos em propostas para a deficiência intelectual, como fazemos no grupo de autodefensores, ajudam a combater nosso sentimento de solidão. No grupo sabemos que não estamos sozinhos e que podemos fazer muito por nós e por todas as pessoas com deficiência. Há falas de pessoas que não aceitavam sua deficiência; uma participante disse que, quando namorava, o rapaz não sabia de sua deficiência e com o grupo ela se sentiu fortalecida para contar a verdade, e isso mudou sua vida. Mesmo com as dificuldades e as piadas que ainda sofre, ela se sente firme para mostrar o outro lado da pessoa com deficiência intelectual.

Sentimos que as pessoas sempre ficam pensando: será que a pessoa com deficiência intelectual vai conseguir? No trabalho, a sensação é sempre a de que estamos sendo testados se somos capazes; precisamos provar que conseguimos. A sociedade deve ter um novo olhar com a gente, acreditando antes de duvidar.

Acreditamos que o melhor caminho para vencer os preconceitos e conquistarmos nossos espaços é um trabalho em que possamos conviver com todas as pessoas, com ou sem deficiência. Isso é inclusão. Conviver com pessoas sem deficiência é nosso direito. Sabemos que muitos ainda acreditam que as pessoas com deficiência intelectual devem ficar apenas nas instituições. Não acreditamos nisso! Nosso lugar é onde queremos estar. No Grupo de Autodefensores buscamos criar atividades para que as pessoas possam nos conhecer, seja dentro da própria APAE, seja fora dela. Queremos conversar com os familiares, profissionais e pessoas com deficiência para mostrar que é possível a pessoa com deficiência intelectual desenvolver sua vida de maneira mais livre, basta estimular e acreditar.

Claro que o apoio é importante e necessário. Às vezes, precisamos de apoio, para ler ou escrever; precisamos de apoio para entender o que está sendo falado. Quando vamos a um evento em que as pessoas usam palavras difíceis, o apoio é importante para explicar o que elas significam. Muitas vezes não será na primeira vez que a pessoa com deficiência intelectual vai entender; será preciso repetir, até ela entender. A pessoa com deficiência intelectual aprende mais rápido com situações concretas e uso de imagens, sons, material inclusivo. Queremos deixar a mensagem de que nós, pessoas com deficiência intelectual, temos direitos a tantas coisas: namorar, ser feliz, ser respeitado(a), estudar, casar, ter filhos, trabalhar, andar sozinho (a), opinar, ir para a balada, escolher, ter uma vida afetiva e escolher nossa orientação sexual, viajar, tomar decisões, ter voz… Basta ter uma oportunidade!

Autores

Stephanie Lima FerreiraAutodefensora da APAE DE PAULO e Conselheira Titular do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência.

Ronie Vitorino Pires de NovaisAutodefensor da APAE DE SÃO PAULO.

Wellington MeloAutodefensor da APAE DE PAULO e Conselheiro Titular do Conselho Municipal dos Direitos da Juventude.

Lucas Silva Bueno CamargoAutodefensor da APAE DE SÃO PAULO.

Texto originalmente publicado na Revista DI – deficiência intelectual, nº 13/14 – Acesse a edição completa
http://bit.ly/revista-di-13-14