Muito se fala em autodefesa da pessoa com deficiência e o discurso perpassa por falas bem elaboradas, todavia na prática ainda há um caminho longo a se percorrer. Para discorrer sobre autodefesa preponderamos em uma palavra fundamental: autonomia. E autonomia está ligada automaticamente à independência. É imprescindível que enquanto profissional para que atue, de fato, na autodefesa da pessoa com deficiência o conceito de autonomia deve estar claro e atrelado a minha vida pessoal. Só depois desta reflexão é que terei condições de realizar e desenvolver um processo de autonomia para pessoa com deficiência e consequentemente, para sua família.

Quando falar de autonomia, devo ter a capacidade de mostrar à família o quanto ela é necessária e gratificante, ainda, o quanto a obtenção da independência da pessoa com deficiência terá se a mesma for estimulada. Para isso, a família deve realizar um exercício de confiança e de delegação de responsabilidades e isso não é uma tarefa fácil considerando que historicamente a pessoa com deficiência intelectual foi infantilizada e protegida pelas suas respectivas famílias.

Claro que esta proteção sempre foi garantida com o objetivo de buscar o melhor para seus filhos, pois quando a família recebe a notícia de que seu filho tem uma deficiência, vem à tona o sentimento de incapacidade e vulnerabilidade durante toda vida. E ainda não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade que forma pessoas para produzirem cada vez mais e quanto mais se produz, mais eficiente se é considerado, logo a pessoa com deficiência nesta sociedade sequer é visto e notado como uma pessoa produtiva e com habilidades.

pessoasÉ interessante pensar ainda que autonomia difere, em seu conceito, de família para família: para umas pode ser sinônimo de liberdade e conquista, para outras é sinal de perda e receio. Já a autodefensoria, diferente do que muitos pensam, acontece no dia a dia, é um preparo. É um trabalho que deve acontecer em conjunto, com equipe multidisciplinar e em família. Autodefesa é o princípio universal que se aplica a todas as pessoas. Pode ser definido como reconhecimento da sua capacitação individual para tomar decisões e fazer escolhas que são importantes em sua vida diária.

A pessoa com deficiência deve ser vista de acordo com a idade que ela tem, para que assim evitemos que este indivíduo seja sempre assistido por uma ótica infantilizada e que ele possa ter uma vida mais típica possível. Autodefesa inicia logo na infância e estende-se por toda vida.

Não adianta fazer grupos esporádicos de autodefensoria e avaliar que o trabalho está sendo realizado. A Autodefensoria se dá no cotidiano; ele passa por uma mudança de atitude, é além de teoria, por isso, ele é tão complicado de ser implantado. O trabalho deveria ser simples, basta o acreditar na pessoa com deficiência, respeitando suas singularidades e limitações, mas valorizando suas potencialidades e habilidades; estimular a família para que ela, em seu cotidiano, estimule a pessoa com deficiência, para que possa expressar seus desejos, receios e vontades. A autonomia não ocorre com data marcada.

À medida que crescemos temos que ficar aptos a tomar decisões. Entendemos que a auto-advocacia é a capacidade de argumentação em defesa própria, exercício da cidadania plena e o empoderamento é o reconhecimento dos direitos e capacidades para determinada tarefa.

Para que a pessoa com deficiência tenha auto-advocacia, primeiramente deve ser empoderado, ela necessita ser apoiada, informada e capacitada neste processo de autodefesa. Não é simplesmente um curso que se faz em um determinado período e pronto, considera-se concluído o trabalho de autodefensoria. Não é isso. É necessário viver experiências, ser estimulada, ter tomadas de decisões, fazer escolhas que vão aumentando complexidade, na medida em que a pessoa vai crescendo e ampliando seu círculo de relações.

Jamais deve se usar o “achismo” em um trabalho de autodefensoria. Ele deve ser norteado, em uma perspectiva dos direitos humanos e norteado pela inclusão social. Os avanços na legislação acerca da deficiência são notórios, mas a lei por si só não garante a inclusão social. Exemplo: uma pessoa com deficiência tem direito a educação e pode ser matriculada em uma escola regular, mas pode não se sentir pertencente àquela instituição e ser uma pessoa invisível por todos que a permeiam. Portanto falar de autodefesa é também romper os muros extras das APAES; é proporcionar, reforçar e ressaltar que a autodefensoria se dá em outros “lócus” para além das Organizações que apoiam e atendem estas pessoas. Para o exercício pleno da autodefensoria há que se considerar: a pessoa com deficiência, sua família e o contexto em que está inserida – Sociedade.

Ao se falar de autodefesa as palavras se tornam repetitivas, como já dizia uma canção: “sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?”, mas como é fato que a autodefesa da pessoa com deficiência é uma quebra de paradigmas, pressupõe uma transformação atitudinal, por isso é necessário ressaltar a importância do acreditar na pessoa com deficiência, permitir e colaborar que ela construa sua identidade.

Identidade é construída na ação. Deve-se permitir que a pessoa com deficiência faça, crie, imagine, produza, escolha. É potencializar suas habilidades e valorizar as pequenas ações e avanços. É um texto que parece óbvio em suas inferências, mas sabemos que a pessoa com deficiência ainda é vista de forma assistencialista, segregada, fragmentada e tutelada. Trabalhar a autodefesa dessas pessoas, não precisa de uma receita pronta, mas requer pesquisas, leituras, ações e o principal: acreditar que este trabalho é possível e necessário.

Autora

Mônica RochaMônica Neves Rocha Arten é assistente social desde 2004, especialista em gestão pública e gestão de políticas sociais. Assistente social da APAE DE SÃO PAULO do núcleo de políticas do programa de autodefensoria. Coordenadora de autodefensoria da Federação Estadual das Apaes de São Paulo, desde 2011.