A experiência nos atendimentos psicossociais na área de Defesa e Garantia de Direitos na APAE DE SÃO PAULO levanta uma reflexão importante sobre a situação da mulher vítima de violência doméstica.

Consideramos violência doméstica contra a mulher qualquer ação ou omissão baseadas no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico, dano moral ou patrimonial (Artigo 5da Lei Maria da Penha, a Lei nº 11.340/2006).

A violência doméstica é um fenômeno recorrente em nossa sociedade, no qual elementos culturais e históricos facilitam e alimentam o chamado pacto do silêncio. É uma forma de hostilidade que muitas mulheres estão submetidas, ocorre entre os membros da família, independentemente do agressor estar ou não na mesma residência. Observamos que a mulher que possui filhos com deficiência, enfrenta maiores dificuldades para romper com a relação abusiva por se sentirem vulneráveis.

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Com o nascimento do filho com deficiência altera-se a rotina, ocorrendo o abandono do trabalho e muitas vezes da própria formação educacional, estabelecendo uma realidade em que será necessário lidar com sentimentos de choque, tristeza, depressão, luto, medo e negação; sentimentos esses frequentes, frente ao diagnóstico da deficiência. Sabe-se que o bebê diferente do idealizado pode alterar o equilíbrio da família, afetando todos os seus membros.

A mulher assume o cuidado integral da criança, distancia-se da família e da própria vida comunitária, o que dificulta ainda mais a quebra do ciclo da violência.  A probabilidade de esgotamento, problemas emocionais e psicológicos são maiores, impactando em isolamento social, agressividade na relação conjugal, sobrecarga emocional, revolta, desejo que o marido/companheiro ou pai da criança contribua para os cuidados do filho. A dinâmica estabelecida pode desencadear perturbações na saúde mental e do bem-estar psicológico.

Quando falamos de violência doméstica, nos remetemos à imagem da mulher agredida fisicamente, contudo, é importante ressaltar que a violência manifesta-se de diversas formas, entre elas a psicológica que traz como comportamento do parceiro, o distanciamento, as críticas em relação à aparência da mulher, rejeição ao filho com deficiência e exigências em relação à vida sexual, desconsiderando o esgotamento físico e emocional da parceira.

A mulher, frente à rotina de consultas médicas, estimulação e habilitação, dedica-se aos cuidados da criança e acredita que deve suportar os abusos praticados pelo companheiro.  Com frequência ouvimos relatos sobre o cansaço e acúmulo de tarefas, trazendo em seus discursos, sentimentos de culpa por acreditarem que “são merecedoras” do desprezo do companheiro.

violencia-01A questão socioeconômica é uma grande dificuldade a ser enfrentada uma vez que a mulher não consegue conciliar a rotina de cuidados da criança com o trabalho formal, impossibilitando adquirir condições econômicas para alcançar independência fora de casa. A dificuldade será maior de acordo com a gravidade da deficiência da criança, quanto maiores as limitações, mais dificuldades a mulher encontrará para romper com a relação.

Com isso, torna-se pertinente as instituições ampliarem o olhar para a dinâmica familiar e para as questões relacionadas à violência doméstica, principalmente a promoção da saúde ao cuidador, a fim de diminuir o desgaste emocional decorrente dos cuidados e atenção prestada à criança com deficiência intelectual.

Nessa perspectiva, o psicólogo pode atuar como mediador no processo de enfrentamento ao fenômeno da violência doméstica, possibilitando um espaço de troca de experiências e sentimentos. Estimulando o melhor manejo de emoções e comportamentos que promovam o bem-estar da mulher e de seus familiares.

Entende-se que a mulher fortalecida terá mais condições de romper com as situações de violência, seja violência doméstica, social ou estrutural. Investir no cuidado à criança com deficiência é investir no cuidador/mulher. Quanto mais saudável o cuidador estiver, mais recursos internos ele terá para investir na relação com a criança.

O trabalho de grupo realizado mensalmente com mulheres que frequentam o Espaço Família na APAE DE SÃO PAULO é um exemplo do que pode dar certo. Com o objetivo de fortalecer a identidade feminina, encorajar ações e ampliar discussões acerca do desafio de ser mulher na sociedade brasileira, trabalhamos o conceito de sororidade e possibilitamos a união entre as mulheres, baseando o convívio na empatia e companheirismo em busca de objetivos comuns. Dessa forma por meio de uma experiência subjetiva possibilitamos que a mulher, mãe de criança com deficiência intelectual, tenha conhecimento e garanta seus direitos lutando contra quaisquer formas de opressão.

 

Autores:

Luciana-AssisLuciana de Assis Silva e Sanches é mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie com especialização na Área de Violência Doméstica (LACRI) – Universidade de São Paulo – USP. Formação Clínica em Psicologia pela Universidade Camilo Castelo Branco. Psicóloga do Serviço de Defesa e Garantia de Direitos da APAE DE SÃO PAULO.

 

 

Eduardo-Pan-BlogEduardo José Pan é ator, com graduação em Comunicação Social pela Universidade São Judas Tadeu –SP. Especializado em Mediação de Conflitos pela PUC – SP. Atua na área da Assistência Social desde 1987. Supervisor dos Programas Jurídico Social e Prevenção à Violência da área de Defesa e Garantia de Direitos da APAE DE SÃO PAULO.